Resumo: O artigo defende que o futuro da gestão de frotas depende da integração entre tecnologia e gestão. Videotelemetria, Inteligência Artificial e monitoramento identificam riscos, mas os resultados surgem quando esses dados orientam acompanhamento, treinamento e ações preventivas. O texto mostra ainda que segurança também gera eficiência, redução de custos e competitividade, destacando a importância da ISO 39001 e de uma gestão capaz de agir antes dos acidentes. A conclusão é clara: tecnologia identifica, gestão transforma — e o principal resultado são vidas preservadas.
Você já imaginou como seriam as rodovias brasileiras se todas as empresas de transporte pesado — ônibus, caminhões e carretas — utilizassem videotelemetria com Inteligência Artificial, capaz de identificar automaticamente fadiga, sonolência, uso de celular, falta do cinto de segurança, distrações e outros comportamentos de risco?
Agora imagine algo além.
Esses sistemas conectados a um Centro de Controle Operacional 24 horas, acompanhando viagens em tempo real e atuando nos eventos críticos antes que uma falha se transforme em um grave sinistro.
Provavelmente teríamos um cenário muito diferente nas rodovias brasileiras.
Menos acidentes. Menos perdas. Mais vidas preservadas.
O problema é muito maior do que tecnologia
Dados da Polícia Rodoviária Federal demonstram que os veículos pesados estão envolvidos, todos os anos, em dezenas de milhares de sinistros nas rodovias brasileiras.
E quando falamos de ônibus, caminhões e carretas, estamos falando de veículos que deslocam dezenas de toneladas, muitas vezes acima de 80 km/h.
Quando ocorre uma colisão, a combinação entre massa e velocidade potencializa enormemente suas consequências.
- Tombamentos.
- Colisões traseiras.
- Colisões frontais.
- Saídas de pista.
- Ultrapassagens perigosas.
- Fadiga.
- Sonolência.
- Distração.
- Excesso de velocidade.
- Uso do celular.
São diferentes manifestações de um problema que, muitas vezes, começa muito antes do acidente. Começa na gestão.
A rodovia não seleciona quem entra nela
Dentro de uma indústria, existem processos de seleção, integração, treinamentos, procedimentos, normas, supervisão e controles.
Na rodovia, todos compartilham o mesmo espaço.
Motoristas altamente profissionais dividem a pista com condutores inexperientes, distraídos, cansados ou imprudentes.
E mesmo entre motoristas profissionais existem diferenças enormes de formação, disciplina, treinamento e comportamento.
Por isso, uma transportadora que deseja operar em alto nível precisa construir suas próprias camadas de proteção.
E algumas empresas já entenderam isso.
As melhores empresas estão mudando de fase
Existe um grupo de transportadoras que está rompendo com o modelo tradicional.
São empresas que perceberam que segurança não pode ser tratada apenas como uma campanha interna ou responsabilidade de um departamento.
Segurança precisa fazer parte da estratégia empresarial.
E existe algo ainda mais interessante:
Um motorista que dirige de forma segura, normalmente também dirige de maneira mais econômica.
- Menos acelerações bruscas.
- Menos frenagens severas.
- Melhor aproveitamento da inércia.
- Velocidade mais adequada.
- Menor desgaste de pneus e freios.
- Menor consumo de combustível.
- Menor exposição ao risco.
Por isso, acredito que as empresas vencedoras do futuro serão aquelas capazes de fortalecer simultaneamente três pilares:
SEGURANÇA + EFICIÊNCIA + SUSTENTABILIDADE.
Mas comprar tecnologia não significa fazer gestão
Esse talvez seja um dos maiores erros do mercado.
Uma empresa pode instalar câmeras, sensores, telemetria e Inteligência Artificial em toda a frota e continuar apresentando resultados ruins.
Porque a tecnologia, sozinha, não transforma comportamento.
A tecnologia identifica. A gestão transforma.
Imagine um sistema identificando que determinado motorista utilizou o celular repetidamente durante uma viagem.
A informação existe.
- Mas o que acontece depois?
- Quem analisa?
- Quem classifica o risco?
- Quem conversa com o motorista?
- Quem treina?
- Quem acompanha reincidência?
- Quem reconhece os melhores profissionais?
- Quem atua imediatamente quando existe um evento crítico?
É exatamente aí que as duas principais peças do quebra-cabeça precisam se encontrar:
TECNOLOGIA + GESTÃO
Quando isso acontece, dados deixam de ser apenas dados.
Eles se transformam em inteligência operacional.
Segurança também aparece no resultado financeiro
Existe ainda uma importante dimensão econômica.
- Combustível.
- Pneus.
- Manutenção.
- Freios.
- Seguros.
- Acidentes.
- Indenizações.
- Multas.
- Veículos parados.
- Perda de produtividade.
Tudo isso afeta diretamente o resultado de uma transportadora.
Uma operação mais segura tende também a ser uma operação mais eficiente.
Dependendo da maturidade inicial da empresa e dos problemas encontrados, a combinação entre tecnologia, gestão de comportamento, treinamento e indicadores pode gerar reduções muito relevantes de custos.
E isso nos leva a uma mudança importante no mercado.
Os grandes clientes estão ficando mais exigentes.
No futuro, talvez não seja suficiente apresentar apenas preço.
As melhores empresas precisarão apresentar evidências de segurança, governança e performance operacional.
E aquelas que estiverem preparadas terão melhores condições de conquistar os contratos mais estratégicos.
Ainda existem empresas operando na sorte
Infelizmente, muitas organizações ainda trabalham praticamente às cegas.
- Pouco monitoramento.
- Pouco treinamento.
- Pouco reconhecimento dos bons motoristas.
- Pouco controle dos eventos de risco.
- Pouca análise de indicadores.
- Pouca prevenção.
E muita dependência da sorte.
Existe uma frase atribuída a Sêneca que resume bem esse cenário:
“Nenhum vento é favorável para quem não sabe a que porto se dirige.”
Administrar uma frota sem dados, indicadores e controle é exatamente isso.
Durante algum tempo pode funcionar.
Até o dia em que deixa de funcionar.
A tecnologia está levantando o tapete
Existe ainda outro fenômeno acontecendo.
Durante décadas, muitos problemas permaneceram escondidos.
Hoje isso ficou muito mais difícil.
- Câmeras.
- Smartphones.
- Redes sociais.
- Telemetria.
- Inteligência Artificial.
- Dados.
Tudo está tornando as operações mais transparentes.
Aquilo que antigamente poderia ficar “debaixo do tapete” hoje pode ganhar milhares ou milhões de visualizações em poucas horas.
Reputações construídas durante décadas podem ser comprometidas por uma única ocorrência grave, principalmente quando acompanhada de evidências de negligência.
O mercado está começando a separar quem realmente faz gestão de quem apenas parece fazer.
O joio está sendo separado do trigo.
Precisamos premiar quem faz a coisa certa
Existe também uma reflexão que precisa chegar ao poder público.
Por que uma empresa que investe continuamente em segurança, tecnologia, treinamento e gestão deve ser tratada exatamente da mesma forma que outra que praticamente nada faz?
O Código de Trânsito Brasileiro já possui o Registro Nacional Positivo de Condutores — RNPC, que reconhece condutores sem determinadas infrações no período previsto em lei.
Por que não avançarmos para algo semelhante destinado às empresas?
Proponho uma reflexão sobre aquilo que poderíamos chamar de:
RPGV — Registro Positivo da Gestão Veicular
Um mecanismo de reconhecimento para empresas com:
- menores índices de sinistralidade;
- processos estruturados de segurança;
- utilização de tecnologias preventivas;
- monitoramento comportamental;
- capacitação permanente;
- gestão de fadiga;
- indicadores de segurança;
- auditorias;
- certificações reconhecidas.
Empresas com melhores resultados poderiam receber incentivos tributários, securitários, regulatórios ou comerciais.
Precisamos construir um ambiente onde fazer a coisa certa também gere vantagem competitiva.
E os embarcadores também precisam assumir seu papel
Essa transformação não depende somente das transportadoras.
Indústrias, embarcadores e grandes contratantes possuem enorme poder de mudança.
Se uma empresa contrata transporte de cargas ou fretamento de colaboradores, deveria perguntar:
Essa transportadora utiliza videotelemetria com IA?
Existe monitoramento dos eventos críticos?
Os motoristas recebem treinamento baseado em dados?
Existe gestão da fadiga?
Existe um processo estruturado de segurança viária?
Preço continuará sendo importante.
Mas não pode ser o único critério.
Quando uma empresa escolhe um transportador, ela também está escolhendo, de alguma maneira, qual nível de risco aceita colocar nas rodovias em seu nome.
ISO 39001: talvez uma das peças mais importantes
E chegamos a uma peça fundamental desse quebra-cabeça.
Muitos acidentes começam muito antes do momento da colisão.
Começam em uma escala inadequada.
Em uma jornada mal planejada.
Na falta de treinamento.
Na manutenção deficiente.
Na inexistência de indicadores.
Na ausência de uma análise crítica.
Na tolerância contínua aos desvios.
Ou seja:
Por trás de muitas falhas de segurança existem falhas de gestão.
Por isso, considero a ISO 39001 — Sistema de Gestão da Segurança Viária um dos melhores caminhos para organizações que desejam estruturar sua gestão de riscos no trânsito.
Imagine milhares de empresas brasileiras de transporte utilizando sistematicamente:
- metas,
- indicadores,
- auditorias,
- análises críticas,
- investigação,
- planos de ação,
- gestão de riscos,
- melhoria contínua.
O Brasil poderia alcançar outro patamar de segurança viária.
Precisamos mudar o círculo
Durante muitos anos construímos boa parte da gestão de segurança em torno do que acontece depois do acidente.
- O acidente acontece.
- Investigamos.
- Corrigimos.
- Consertamos o veículo.
- Acionamos o seguro.
- Produzimos o relatório.
- Treinamos novamente.
- E seguimos.
Esse é o círculo vicioso da correção.
Precisamos construir outro modelo.
Um círculo virtuoso baseado em:
PREVER.
IDENTIFICAR.
INTERVIR.
APRENDER.
MELHORAR.
PREVENIR.
O futuro da gestão de frotas não será construído apenas por câmeras, sensores ou Inteligência Artificial.
Também não será construído somente por bons gestores.
Será construído pela integração de ambos.
TECNOLOGIA + GESTÃO
Esse é o verdadeiro quebra-cabeça.
Quando essas peças se encaixam, ganhamos produtividade, reduzimos custos, protegemos ativos e construímos empresas mais competitivas.
Mas existe um resultado muito maior do que todos os outros:
VIDAS PRESERVADAS.
Precisamos sair definitivamente da cultura de investigar por que alguém morreu para construir uma cultura capaz de agir antes, para que aquela pessoa não morra.
Esse é o transporte que precisamos construir.
E essa transformação já começou.
André Cerqueira – Mestre em Administração | Engenheiro Mecânico e de Segurança | Especialista em Trânsito, Gestão e Transformação Digital
#GestãoDeFrotas #SegurançaViária #Transporte #Logística #Videotelemetria #InteligênciaArtificial #Gestão #ISO39001 #Tecnologia #Inovação #SegurançaNoTrânsito #Mobilidade #Transportes #Liderança
0 comentário