Resumo: O artigo alerta para os riscos do celular ao volante, destacando que a distração pode ser visual, manual e cognitiva ao mesmo tempo, comprometendo significativamente a capacidade de condução. O texto demonstra, por meio da física e das regras do Código de Trânsito Brasileiro, que poucos segundos de distração podem representar dezenas de metros percorridos sem a atenção necessária. A análise também destaca que o problema vai além da fiscalização e das multas: é uma questão de comportamento, prevenção e gestão de riscos.
Introdução
As novas regras de fiscalização no trânsito ampliam a atenção para álcool e outras substâncias capazes de alterar a capacidade de condução. O avanço do chamado drogômetro representa mais uma ferramenta importante para aumentar a segurança nas nossas ruas e rodovias.
Mas existe um outro problema que muitas vezes passa despercebido pela sociedade.
É legal. Está presente praticamente 24 horas por dia na vida das pessoas. Todas as idades utilizam. Pode gerar dependência comportamental. E, quando usado ao volante, pode ser fatal.
O nome dessa “droga” é CELULAR AO VOLANTE
Uso aqui a palavra “droga” como uma provocação comportamental, e não como uma classificação médica ou jurídica.
Porque tudo aquilo que reduz nossa atenção, compromete nossa percepção e interfere na capacidade cognitiva representa um enorme risco quando estamos conduzindo um veículo.
E o celular possui uma característica particularmente perigosa: ele pode provocar três tipos de distração ao mesmo tempo.
👁️ Distração VISUAL: O motorista retira os olhos da via.
✋ Distração MANUAL: O motorista tira uma das mãos — ou as duas — da atividade de condução.
🧠 Distração COGNITIVA: Mesmo olhando para a frente, sua mente deixa de estar integralmente dedicada à direção.
Agora imagine essas três condições acontecendo simultaneamente.
É exatamente isso que ocorre quando alguém dirige enquanto lê uma mensagem, responde no WhatsApp, procura um contato, muda uma música, navega nas redes sociais ou simplesmente decide “dar uma olhadinha” na tela.
E existe um problema ainda maior: não existe negociação com a física.
- Um veículo a 60 km/h percorre aproximadamente 17 metros por segundo.
- Em apenas 3 segundos de distração, são cerca de 50 metros percorridos.
- Em 5 segundos, aproximadamente 83 metros.
- A 100 km/h, cinco segundos representam quase 140 metros.
Ou seja: alguns segundos olhando para uma tela podem significar dezenas de metros percorridos praticamente sem a atenção necessária para reagir a um pedestre, uma motocicleta, um veículo freando, um objeto na pista ou qualquer situação inesperada.
E quando o motorista finalmente percebe o risco, ainda existe o tempo de reação.
Depois, existe a distância de frenagem.
A física não oferece segunda chance.
O problema é maior do que parece.
A direção distraída já é tratada internacionalmente como um dos grandes desafios contemporâneos da segurança viária.
Pesquisas e estudos conduzidos ao longo dos últimos anos mostram aumento significativo do risco de acidentes durante o uso do celular.
A questão central não é apenas “estar com o aparelho na mão”.
Mesmo uma conversa utilizando viva-voz pode gerar distração cognitiva.
Isso significa que existe uma diferença importante entre duas perguntas:
É permitido?
e
É seguro?
Nem tudo aquilo que não gera uma autuação automática deixa de representar risco para a condução.
E o que diz o Código de Trânsito?
No Brasil, o Código de Trânsito Brasileiro é bastante claro em relação ao motorista que segura ou manuseia telefone celular enquanto dirige.
Essa conduta é considerada infração gravíssima, com:
- multa de R$ 293,47;
- 7 pontos na CNH.
Portanto, não existe diferença relevante entre “só falar”, “só olhar uma mensagem” ou “só mexer rapidamente” quando existe o ato de segurar ou manusear o aparelho durante a condução.
Já o uso de fones conectados ao telefone possui enquadramento próprio no CTB.
Mas o ponto que precisamos discutir vai muito além da multa.
Precisamos discutir comportamento.
O que observamos todos os dias nas operações
Na Motora, monitoramos mais de 100 mil viagens todos os meses, utilizando vídeo telemetria, visão computacional e inteligência artificial.
E quando analisamos os eventos de risco identificados durante as viagens, uma constatação se repete:
a distração está entre os principais problemas de comportamento ao volante.
Mais de 60% dos eventos de risco que observamos estão relacionados às diferentes formas de distração, sendo o uso do celular uma parcela extremamente relevante dessas ocorrências.
A tecnologia nos permite identificar o evento.
Mas somente identificar não resolve o problema.
O grande valor está em transformar aquele dado em gestão de comportamento.
Quando o gestor consegue mostrar a imagem para o motorista, a conversa deixa de ser abstrata.
“Veja o que aconteceu aqui.”
“Observe quanto tempo você permaneceu olhando para a tela.”
“Veja o que estava acontecendo na rodovia enquanto sua atenção estava no celular.”
A imagem cria consciência.
A gestão gera acompanhamento.
Mas, no final, existe uma parte que depende exclusivamente do condutor.
Uma experiência que nunca esqueci
Em um de nossos clientes, acompanhávamos um motorista que apresentava eventos de uso do celular em praticamente todas as viagens.
Sentamos com ele.
Mostramos os vídeos.
E fizemos uma pergunta simples:
“O que você precisa fazer para se tornar um motorista nota 10?”
Ele respondeu imediatamente:
“Deixar o celular dentro da bolsa enquanto eu estiver dirigindo.”
E completou:
“Isso não depende de ninguém. Depende somente de mim.”
Ele tomou essa decisão.
E o resultado apareceu rapidamente.
Esse motorista passou a apresentar desempenhos de condução segura superiores a 9,5, tornando-se referência dentro da operação.
Esse caso me marcou porque mostra algo importante:
muitas vezes, a tecnologia identifica um problema extremamente sofisticado, mas a solução comportamental pode ser extremamente simples.
O desafio é mudar o hábito
Vivemos em um mundo acelerado. Somos bombardeados por notificações.
- Mensagens.
- Vídeos.
- E-mails.
- Aplicativos.
- Redes sociais.
Existe uma sensação permanente de que tudo precisa ser respondido imediatamente. Mas, quando estamos dirigindo, precisamos estabelecer uma nova prioridade.
- A mensagem pode esperar.
- A ligação pode esperar.
- A notificação pode esperar.
Uma vida pode não ter essa mesma oportunidade. Durante muitos anos construímos uma mensagem muito forte no trânsito:
Se beber, não dirija.
Talvez seja hora de acrescentarmos outra com a mesma intensidade:
Se dirigir, não use o celular.
A Lei Seca evolui.
- O drogômetro chega.
- As tecnologias de fiscalização avançam.
- Os sistemas de vídeo telemetria e inteligência artificial também avançam.
- Mas existe uma tecnologia que continuará sendo insubstituível:
a decisão humana.
- Antes de começar a viagem, coloque o celular fora do alcance.
- Na bolsa.
- No porta-luvas.
- Em algum lugar onde ele não dispute sua atenção com a rodovia.
- Porque talvez, para se tornar um motorista nota 10, você também precise fazer apenas uma coisa.
- E provavelmente você já sabe qual é.
Atenção é uma escolha.
E escolhas salvam vidas.
👉 Tratar o uso do celular ao volante como um risco real da operação — e não como um hábito inofensivo — é essencial para empresas comprometidas com a segurança viária.
Como mostra o artigo, a distração pode comprometer simultaneamente a visão, os movimentos e a capacidade cognitiva do condutor. Por isso, prevenir exige mais do que fiscalização: exige conscientização, monitoramento, gestão e mudança de comportamento.
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No transporte, cada segundo de atenção importa. E quando tecnologia e gestão trabalham juntas para identificar riscos e orientar condutores, a prevenção deixa de ser apenas uma intenção e passa a fazer parte da operação. Porque no trânsito, preservar vidas deve ser sempre o principal resultado.
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Artigo escrito por André Cerqueira – Innovation, Technology, Mobility, Safety
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