Motora AI

Resumo: O artigo aprofunda a análise de acidentes no transporte rodoviário de cargas mostrando que eles raramente têm uma única causa e quase nunca começam “na cabine”, mas sim como resultado de falhas sistêmicas e decisões tomadas muito antes da viagem, reforçando que responsabilidade não pode ser atribuída exclusivamente ao motorista. A partir do caso real ocorrido na BR-448 (Porto Alegre), em que uma carreta envolvida circulava sem tacógrafo, o texto evidencia como a liderança influencia diretamente o nível de risco operacional ao definir critérios de recrutamento e seleção, programas de integração e capacitação (técnica e comportamental), gestão rigorosa de inspeções e manutenções, acompanhamento de desempenho e feedback, além do investimento e uso correto de tecnologia (telemetria, câmeras e IA) para certificar padrões e procedimentos.

Introdução

Os acidentes no transporte rodoviário são eventos complexos, raramente atribuíveis a uma única causa ou a um único indivíduo. Eles são o ponto culminante de uma série de falhas que, muitas vezes, começa muito antes da ignição do veículo. Para ilustrar essa complexidade, recordemos o incidente na BR-448 no dia 07/10/25, em Porto Alegre, onde a jovem Eduarda Corrêa, de 23 anos, foi soterrada por uma carga de 28 toneladas de serragem após uma carreta tombar sobre seu carro. Eduarda foi milagrosamente salva pela “cápsula de sobrevivência” de seu veículo, mas a investigação da Polícia Rodoviária Federal revelou um fato: o caminhão estava circulando sem tacógrafo, um equipamento obrigatório para registrar velocidade e tempo de direção e parada do veículo.

Em meio à comoção, áudios divulgados na mídia apontavam que um representante da empresa teria atribuído toda a culpa do acidente ao condutor. Mas será que a responsabilidade se encerra ali, na cabine do caminhão e na figura do motorista? A análise aprofundada nos mostra que a liderança exerce uma influência decisiva, e muitas vezes subestimada, na ocorrência e prevenção desses eventos.

Links sobre o acidente mencionado acima:

A Complexa Teia da Responsabilidade: Além do Motorista

É inegável que o motorista, com sua experiência, capacitação e as decisões tomadas ao volante, detém uma parcela significativa de responsabilidade em qualquer incidente. Sua habilidade técnica, seu nível de atenção e sua adesão às normas de trânsito são cruciais. No entanto, o motorista não opera em um vácuo. Ele é parte de um sistema, e a qualidade desse sistema é determinada pela liderança da empresa. Ao contratar um motorista e colocá-lo na estrada com um veículo e uma carga, a organização assume uma série de corresponsabilidades que permeiam cada etapa da operação. A liderança não apenas define as regras e procedimentos, mas também molda a cultura que, em última instância, pode levar a um ambiente de segurança ou de risco iminente.

A Liderança como Arquiteta da Segurança no Transporte

A segurança no transporte não é um departamento isolado, mas uma filosofia que deve ser internalizada em todos os níveis da organização, começando pela alta liderança.

Os líderes não apenas precisam “comprar” a ideia de segurança; eles precisam incorporá-la como um valor fundamental. Quando a segurança é pilar estratégico, e não apenas uma obrigação regulatória, os benefícios se estendem muito além da redução de acidentes. Empresas que priorizam a segurança consistentemente demonstram melhores resultados econômicos e reputacionais. Um histórico de segurança exemplar atrai e retém talentos, melhora a imagem da marca junto a clientes e parceiros, e minimiza prejuízos ocultos de acidentes, como indenizações, multas, interrupções operacionais e perda de produtividade. A confiança dos stakeholders aumenta, e a empresa se posiciona como um player responsável e ético no mercado.

A responsabilidade da liderança se manifesta em diversas frentes:

  1. Recrutamento e Seleção: A jornada da segurança começa antes mesmo do motorista engatar a marcha. A liderança é responsável por estabelecer critérios rigorosos para a contratação, buscando não apenas a experiência técnica, mas também o perfil comportamental alinhado com a cultura de segurança da empresa. Isso inclui verificar o histórico do motorista, referências e, se pertinente, realizar avaliações psicométricas que identifiquem tendências a comportamentos de risco. Contratar o profissional certo é a primeira linha de defesa.
  2. Integração, Treinamento e Capacitação: Um bom recrutamento é ineficaz sem um programa robusto de integração e capacitação contínua.
    • Qualificação Técnica e Comportamental para Motoristas: O treinamento deve ir além das normas básicas. Deve abordar técnicas de direção defensiva, gerenciamento de fadiga, reconhecimento de riscos psicossociais, e o impacto de substâncias psicoativas. A capacitação comportamental, por sua vez, visa desenvolver a percepção de risco, a tomada de decisão sob pressão e a importância de priorizar a vida.
    • Capacitação para Supervisores e Gestores: A liderança intermediária também necessita de qualificação específica. Eles precisam integrar o conhecimento técnico sobre cargas e veículos com soft skills essenciais, como liderança inspiradora, comunicação eficaz, resolução de conflitos e tomadas de decisão seguras. São eles que implementam as políticas de segurança no dia a dia, monitoram o cumprimento das normas e servem como modelos para suas equipes.
  3. Gestão do Caminhão – Inspeções e Manutenções: A condição da frota é um reflexo direto da prioridade que a liderança atribui à segurança. Políticas ineficientes de manutenção preventiva, como aquelas que permitem a circulação de veículos sem tacógrafo ou com pneus desgastados e freios deficientes, são falhas sistêmicas que colocam vidas em risco. A liderança deve assegurar que haja um plano de manutenção rigoroso, com inspeções periódicas, reparos ágeis e substituição de peças conforme as diretrizes dos fabricantes, garantindo que cada veículo esteja em perfeitas condições operacionais antes de cada viagem.
  4. Gestão dos Motoristas – Avaliação de Desempenho e Feedback: Uma liderança eficaz não espera o acidente acontecer para agir. Ela implementa sistemas de avaliação contínua de desempenho, oferecendo feedback construtivo e reconhecendo comportamentos seguros. Isso inclui monitoramento de jornada para prevenir a fadiga, acompanhamento do comportamento de direção (velocidade, frenagens bruscas) e canais abertos para que os motoristas relatem condições adversas ou situações de risco sem medo de represálias.
  5. Uso de Tecnologia para Certificar Padrões e Procedimentos: A tecnologia é uma aliada poderosa da liderança na gestão de riscos. Desde itens básicos como tacógrafos digitais que garantem a conformidade com a Lei do Motorista, até sistemas de telemetria avançados que monitoram a condução em tempo real e câmeras embarcadas que detectam fadiga ou distração, muitos deles usando a Inteligência Artificial. A liderança tem o papel de investir nessas ferramentas e, crucialmente, utilizá-las para certificar que seus padrões e procedimentos de segurança estão sendo não apenas comunicados, mas efetivamente seguidos e incorporados à rotina operacional.

Propósito e Cultura Organizacional: O Alicerce da Prevenção

No coração de toda empresa segura e bem-sucedida, existe uma cultura organizacional forte, onde a segurança é um valor pétreo.

  • Segurança Não é Custo, é Investimento: Esta é uma verdade fundamental que a liderança deve comunicar e exemplificar. Cada real investido em treinamentos, manutenção preventiva, tecnologia e gestão de pessoas é um investimento que retorna em vidas salvas, custos evitados e uma imagem corporativa fortalecida. O “prejuízo bilionário” dos acidentes (diretos e indiretos) é a prova de que ignorar a segurança é a opção mais cara.
  • Incentivar uma Cultura que Valorize a Vida Acima do Lucro Imediato: A pressão por prazos e produtividade é real, mas a liderança tem o poder (e o dever) de equilibrar essas demandas com a prioridade incondicional da segurança. Isso significa criar um ambiente onde um motorista se sinta seguro para recusar uma viagem em condições perigosas ou para parar devido à fadiga, sem temer penalidades. A vida deve ser sempre o bem mais valioso a ser protegido.
  • Estratégias para Transformar o Mindset de “Reação” para “Prevenção”: A mudança cultural não acontece da noite para o dia. Exige um esforço contínuo da liderança para:
    • Promover a comunicação transparente: Incentivar o relato de quase-acidentes (near-misses) e incidentes menores como oportunidades de aprendizado, e não como motivos para punição.
    • Celebrar comportamentos seguros: Reconhecer e recompensar equipes e indivíduos que demonstram excelência em segurança.
    • Liderar pelo exemplo: Os líderes devem ser os primeiros a demonstrar adesão às normas de segurança e a investir tempo e recursos na sua promoção.

Conclusão: Uma Chamada à Reflexão

Os acidentes no transporte rodoviário são um espelho das nossas prioridades. O caso de Porto Alegre serve como um lembrete contundente de que a responsabilidade não pode ser descarregada exclusivamente sobre os ombros do motorista. A liderança tem o poder e o dever de arquitetar um sistema onde a segurança seja a base de cada operação. É através de um recrutamento cuidadoso, treinamento constante, manutenção impecável, gestão humanizada e o uso inteligente da tecnologia que as empresas podem não apenas reduzir drasticamente o número de acidentes, mas também construir um legado de excelência e responsabilidade.

A questão que permanece, e que convidamos cada empresário, executivo e gestor a refletir é: O que na cultura organizacional da sua empresa está ajudando ou impedindo a segurança no transporte? A resposta a essa pergunta é o ponto de partida para a verdadeira transformação.

👉 Você acredita que assumir a corresponsabilidade entre embarcadores, transportadores e gestores, fortalecer a liderança como pilar da cultura de segurança e tratar tecnologia como instrumento de prevenção e disciplina operacional — e não apenas como reação pós-sinistro — é hoje o caminho mais urgente para reduzir acidentes e proteger vidas no transporte rodoviário de cargas?

Deixe sua opinião nos comentários! Sua visão pode ajudar outras empresas a evoluírem de vez: sair do “discurso de SSMA” e construir uma prática real, com critérios técnicos na seleção de pessoas e parceiros, procedimentos robustos, manutenção e inspeções consistentes, capacitação contínua e uso estratégico de dados para corrigir desvios antes que virem tragédia. Segurança não é um departamento: é liderança, responsabilidade e decisão — todos os dias — preservando o patrimônio humano, material e a reputação de toda a cadeia logística.

🔗 Leia o artigo completo de Tibério Pereira no LinkedInTibério Pereira

Artigo escrito por Tibério Pereira – Consultor em Road Safety, SSMA e Logística | Redução de Sinistralidade e Custos Operacionais | Experiência em Esso, Cosan, Raízen | Implantação de Inovação em Grandes Embarcadores e Transportadora

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